segunda-feira, 30 de março de 2015

A ardente melancolia do crepúsculo

E como estrelas 
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.
(Herberto Helder)

sexta-feira, 27 de março de 2015

O Sabor da Ternura

D. Maria Mendes Pedro vende amendoins, pevides, tremoços, avelãs, amêndoas, broas e um pouco de tudo, diariamente, no topo nascente da Praça da Fruta das Caldas da Rainha - onde tem clientes certos.
Senti que luz tamisada do interior da sua tenda conferia um óptimo ambiente para um retrato a meu gosto – com a claridade a predominar na metade do rosto voltada para o exterior (o plástico do toldo reflectia ainda alguma luz para a face oposta) e com umas tonalidades verdes belíssimas no background a contrastar na perfeição com as do rosto.
Como habitualmente, e após autorização, fui conversando enquanto fotografava com o intuito da retratada ficar, progressivamente, mais à vontade. E de facto ao fim de 17 fotos desapareceu a tensão e, já com a empatia a pairar, por breves instantes, D. Maria deixou vir à superfície do seu rosto marcado - uma antiga doçura que trazia algures escondida/protegida do mundo. Ao deixar de lutar contra a Ternura esta ficou registada para sempre na expressividade da última imagem colhida. E sem expressividade significativamente relevante não há grandes retratos. Por isso o meu dia ficou ganho com o Sabor da Ternura. 

quinta-feira, 26 de março de 2015

Ascensão (a Herberto Helder)

E neste espelho das coisa de repente
unidas todas, beija-me por mim dentro até
ao coração.
No meio.
Onde se morre do silêncio central
da terra.
(Herberto Helder)

sexta-feira, 13 de março de 2015

As paredes da cidade

“The walls around keep the people on the inside from the changes on the outside.”
(Darnell Lamont Walker) 

quarta-feira, 11 de março de 2015

A Sombra

Fotografia obtida ao fim da tarde enquanto explorava as possibilidades plásticas de uma parede de uma Praça de Touros. Alguém se deslocava simultaneamente e a luz quase rasante projectou a sua sombra na área que fotografava. Ao aperceber-se da minha presença a pessoa parou e levantou os braços exclamando: "Ooops... Quase lhe estragava a fotografia"! Mal adivinhava que, ao contrário, fez fotografia acontecer!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Um sorriso na árvore

Quando visitava a Feira Medieval de Óbidos fui surpreendido, no caminho junto à cerca do castelo, por uma menina encarrapitada numa pequena árvore. Perante a cena quase surreal a camara fotográfica obviamente não ficou quieta e, como extensão mental, tentou colher a essência do momento. O assunto era irresistível porque o sorriso da menina fez-me transportar a um tempo em que, ainda rapazola, trepava às árvores para observar embevecido os ninhos das aves e por aí ficava inebriado pela tranquilidade da copa verdejante, pelo canto dos pássaros e pelo aroma de amoras que a brisa morna do Verão me trazia. Sentia então como se estivesse no topo do mundo num lugar privilegiado e sereno sorria. Tal como a menina que ontem encontrei sentada nos braços de uma árvore. 

quarta-feira, 4 de março de 2015

Le Jardin

Le Jardin

Des milliers et des milliers d'années 
Ne sauraient suffire
Pour dire
La petite seconde d'éternité
Où tu m'as embrassé
Où je t'ai embrassèe
Un matin dans la lumière de l'hiver
Au parc Montsouris à Paris
A Paris
Sur la terre
La terre qui est un astre.

(Jacques Prévert)