








Na sequência de novas
abordagens e interesse sobre o extinto (em 1982) Serviço Médico à Periferia
(SMP) atrevi-me a publicar este meu texto / testemunho (e imagens analógicas
que fiz na altura) sobre o SMP - que vivi em 1975 - pela sua importância na História
da Assistência em Portugal, pelo impulso criado para o aparecimento (4 anos
mais tarde) do SNS, pelo aumento de Assistentes Hospitalares nos H. Distritais,
no início da década de 1980, bem como a criação de Núcleos agregando
especialistas (o Núcleo de Gastrenterologia dos H. Distritais é o melhor
exemplo). Outro passo também determinante e em sequência foi a colocação nos H.
Distritais de Internos dos Internatos Geral e Complementar no início da década
de 1980. Consequência da "luta" que um grupo (de que fiz parte) de
colegas dos H. Distritais travou nas então Comissões Regionais e Nacional do
Internatos.
Os médicos que integraram o 1º
ano do SMP em 1975, tinham acabado o curso em 1972 e tiveram a oportunidade de
viver ainda um tempo de aprendizagem com grandes Mestres da Arte Médica durante
o então denominado Ano da Prática Clínica em 1973. Fazia “Banco” no H. S. José
durante 24 h seguidas gratuitamente e com o entusiasmo e alegria de aprender.Depois os jovens médicos desse
mesmo curso cumpriram Serviço Militar em 1974 onde muitos de nós por indicação
do MFA fazíamos incursões a várias localidades (no meu caso ao redor de Mafra)
para fazermos não só educação sanitária das populações de aldeias mas também
“vistorias” a várias fábricas (refrigerantes, matadouros, etc.) avaliando das
condições sanitárias respectivas (e deficientes em algumas).Isto para dizer que quando
iniciámos em Julho de 1975 o 1º ano do SMP muitos dos médicos já tinham um
treino clínico significativo e uma boa experiência no contacto com as gentes
dos povoados mais afastados. Estávamos pois mais que motivados e
suficientemente “maduros” para abraçarmos o projecto do SMP.
Foi um tempo de oportunidades
onde se visava corrigir as assimetrias da prestação dos cuidados de Saúde. Um
tempo generoso e de esperanças que se vislumbrava logo a seguir ao 25 de Abril.
Um tempo em que a Liberdade espreitava e que contribuiu para o desenvolvimento
dos locais mais afastados dos grandes centros e para a consciencialização do
direito aos cuidados de saúde. O nosso convívio com a população mais carente
foi um tempo que não só levou uma maior educação sanitária e uma mais-valia
assistencial (mais justa e solidária) a Portugueses mais necessitados mas
também nos trouxe outros saberes da Arte Médica no domínio do encontro entre
médico e Doente. As pegadas que deixámos iam no sentido de uma Medicina mais
Humanista e menos Economicista.
Uma viagem inesquecível em
1975 ao Portugal mais profundo, pobre e isolado que desencadeou também uma
maior fixação de médicos na Periferia do País. Recordo que na altura os H.
Distritais – com uma área de atracção que correspondia a 75% dos Portugueses –
tinham 4 vezes menos recursos humanos e camas do que os H. Centrais. Orgulho-me
de ter participado no SMP. Um tempo excepcionalmente enriquecedor em que fui
feliz fazendo o que fiz. Saudades das pessoas que por lá encontrei.
Em 1 de Julho de 1975 (ano em
que foi implementado) iniciei o Serviço Médico à Periferia nos Concelhos de
Tomar, Ferreira do Zêzere e Vila Nova de Ourém integrando um grupo (de Lisboa)
em que figuravam também os colegas José Fróis, Tiberio Antunes, Albertino
Barros e João e José Décio Ferreira. Com excepção dos 2 últimos elementos, que
tinham casa própria, ficámos alojados no edifício da antiga messe militar de
Tomar, situada junto à igreja e Convento de São Francisco. Ao lado do então
Centro de Saúde de Tomar. No final foi apresentado relatório final das
actividades à Direcção Geral dos Hospitais. Lembro-me de ouvir, na altura, que
um dos mentores do SMP teria sido o saudoso Professor José Pinto Correia (S.
Gastrenterologia do H.S Maria).
O grupo tinha autonomia
própria em termos organizativos e subdividiu-se. Assim, juntamente com os
colegas Tibério Antunes e José Fróis decidi não fazer serviço no velho Hospital
local descentralizando a prática clinica para zonas mais periféricas onde as
carências eram maiores. Assim a nossa maior actividade foi em V. N. de Ourém e
Ferreira do Zêzere.
No Concelho de V. N. de Ourém
realizaram-se 5607 consultas, Urgência Médica, Pequenas Cirurgias e apoio ao
internamento do Asilo de V. N. de Ourém.
No Concelho de Ferreira do
Zêzere, após se por a funcionar um Centro de Saúde realizaram-se 3126
consultas, Urgência Médica e Pequenas Cirurgias.
No Concelho de Tomar
realizaram-se uma média de 240 consultas mensais, fez-se Medicina Escolar (1109
alunos das então Escolas Primárias e 288 do Ciclo Preparatório), Medicina do
Trabalho (visita a fábricas no Concelho com levantamento das condições e
rastreio cardiopulmonar).
5 comentários:
Gostei de ler esta experiência sobre o modo como se desenvolveu o SMP a partir do qual se criou o SNS. Estas experiências deviam deviam ser mais divulgadas para se perceber como o 25 de Abril, abriu novos caminhos para todos nós. Obrigada. Vi
A propósito destas fotos, gostaria de falar consigo porque gostaria de as inserir num documentário para a RTP2. Como poderei entrar em contacto consigo? Cumprimentos, Lina de Castro
Gostaria de saber se é possível utilizar as suas fotos num documentário que estou a fazer para a RTP2. Como poderei entrar em contacto consigo? Cumprimentos, Lina de Castro
Gostaria de obter um contacto seu, para lhe fazer um pedido de autorização de utilização de imagens suas, para um documentário para a RTP2. Obrigada Lina de Castro. linacastro1@gmail.com
Desculpe mas só hoje vi a sua mensagem. Autorizo a reprodução desde que identifique o autor das imagens. Agradeço que me informe qual a data em que o documentário irá para o ar. Obrigado.
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