segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Um blusão de couro


Hoje vesti um blusão de couro de meados do século passado. Finalmente chegou uma “masterpiece” que tem andado um pouco "esquecida": KnizeTen “vintage” - but still alive after all these years - no seu frasco antigo de 125 ml. (Toilete Water inscrito dentro da etiqueta redonda) e com a fórmula original (pré código de barras). Um descendente e herdeiro directo do Le Tabac Blond (de 1919). Knize Ten nasceu em 1925 pela mão de François Coty e Vincent Roubert. Respectivamente “o homem que inventou a grande perfumaria” e o autor do célebre Iris Gris (de Jacques Fath). O “Cuir de Russie” (1924) é um primo afastado porque tem um Iris floral que retira algum protagonismo ao couro.
É o único dos “grande couros” elegantes, andróginos e ousados que sobreviveu desde os anos vinte do século passado. Existe como um veterano do após 1ª Guerra Mundial que actualmente é quase ignorado.
Durante muito tempo parou a sua produção mas felizmente reapareceu com um couro “à maneira” rodeado por uma aura de âmbar esfumaçado. Abre com um beijo de cítricos e frutas e fecha mais profundo vestindo-nos com um sobretudo de castóreum, musk e musgo de carvalho. Ou seja é uma obra-prima (favorita de James Dean e David Niven) que todos os que gostam de perfumes deveriam experimentar pelo menos uma vez na vida. Um must try.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Wonderful


Uma fragrância que continua a ser excepcional mas comparando com uma versão de 1965 é mais light / “powdery”, menos “poderosa / ousada”, um pouco mais floral e com menos couro e menos tabaco. Mas talvez por isto tudo aparentemente mais “wearable”. Claro que a comparação é um pouco injusta na medida em que na versão “vintage” houve uma evaporação ao longo dos anos tornando-a mais concentrada e por isso mais forte, com um couro mais “hard but not shanky” e com um tabaco doce a fazer lembrar uma longínqua cachimbada de Mayflower que nos chega com uma brisa de Outono. It´s wonderful... wonderful....

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Um Dia De Chuva.


Hoje é um dia particularmente cinzento sublinhado pela chuva persistente nos vidros das janelas. Deixo mais uma vez a barba por fazer e abrigo-me numa poltrona ao canto da biblioteca. Um foco de luz ilumina apenas os livros na mesinha em frente. Escolho um com gravuras de personagens destemidos enfrentando mares adversos ao sabor de uma sinfonia de Vetiver no aroma de Hemingway da Masque Milano.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

O Meu Serviço Médico à Periferia de 1975










Na sequência de novas abordagens e interesse sobre o extinto (em 1982) Serviço Médico à Periferia (SMP) atrevi-me a publicar este meu texto / testemunho (e imagens analógicas que fiz na altura) sobre o SMP - que vivi em 1975 - pela sua importância na História da Assistência em Portugal, pelo impulso criado para o aparecimento (4 anos mais tarde) do SNS, pelo aumento de Assistentes Hospitalares nos H. Distritais, no início da década de 1980, bem como a criação de Núcleos agregando especialistas (o Núcleo de Gastrenterologia dos H. Distritais é o melhor exemplo). Outro passo também determinante e em sequência foi a colocação nos H. Distritais de Internos dos Internatos Geral e Complementar no início da década de 1980. Consequência da "luta" que um grupo (de que fiz parte) de colegas dos H. Distritais travou nas então Comissões Regionais e Nacional do Internatos.

Os médicos que integraram o 1º ano do SMP em 1975, tinham acabado o curso em 1972 e tiveram a oportunidade de viver ainda um tempo de aprendizagem com grandes Mestres da Arte Médica durante o então denominado Ano da Prática Clínica em 1973. Fazia “Banco” no H. S. José durante 24 h seguidas gratuitamente e com o entusiasmo e alegria de aprender.Depois os jovens médicos desse mesmo curso cumpriram Serviço Militar em 1974 onde muitos de nós por indicação do MFA fazíamos incursões a várias localidades (no meu caso ao redor de Mafra) para fazermos não só educação sanitária das populações de aldeias mas também “vistorias” a várias fábricas (refrigerantes, matadouros, etc.) avaliando das condições sanitárias respectivas (e deficientes em algumas).Isto para dizer que quando iniciámos em Julho de 1975 o 1º ano do SMP muitos dos médicos já tinham um treino clínico significativo e uma boa experiência no contacto com as gentes dos povoados mais afastados. Estávamos pois mais que motivados e suficientemente “maduros” para abraçarmos o projecto do SMP.


Foi um tempo de oportunidades onde se visava corrigir as assimetrias da prestação dos cuidados de Saúde. Um tempo generoso e de esperanças que se vislumbrava logo a seguir ao 25 de Abril. Um tempo em que a Liberdade espreitava e que contribuiu para o desenvolvimento dos locais mais afastados dos grandes centros e para a consciencialização do direito aos cuidados de saúde. O nosso convívio com a população mais carente foi um tempo que não só levou uma maior educação sanitária e uma mais-valia assistencial (mais justa e solidária) a Portugueses mais necessitados mas também nos trouxe outros saberes da Arte Médica no domínio do encontro entre médico e Doente. As pegadas que deixámos iam no sentido de uma Medicina mais Humanista e menos Economicista.
Uma viagem inesquecível em 1975 ao Portugal mais profundo, pobre e isolado que desencadeou também uma maior fixação de médicos na Periferia do País. Recordo que na altura os H. Distritais – com uma área de atracção que correspondia a 75% dos Portugueses – tinham 4 vezes menos recursos humanos e camas do que os H. Centrais. Orgulho-me de ter participado no SMP. Um tempo excepcionalmente enriquecedor em que fui feliz fazendo o que fiz. Saudades das pessoas que por lá encontrei.
Em 1 de Julho de 1975 (ano em que foi implementado) iniciei o Serviço Médico à Periferia nos Concelhos de Tomar, Ferreira do Zêzere e Vila Nova de Ourém integrando um grupo (de Lisboa) em que figuravam também os colegas José Fróis, Tiberio Antunes, Albertino Barros e João e José Décio Ferreira. Com excepção dos 2 últimos elementos, que tinham casa própria, ficámos alojados no edifício da antiga messe militar de Tomar, situada junto à igreja e Convento de São Francisco. Ao lado do então Centro de Saúde de Tomar. No final foi apresentado relatório final das actividades à Direcção Geral dos Hospitais. Lembro-me de ouvir, na altura, que um dos mentores do SMP teria sido o saudoso Professor José Pinto Correia (S. Gastrenterologia do H.S Maria).
O grupo tinha autonomia própria em termos organizativos e subdividiu-se. Assim, juntamente com os colegas Tibério Antunes e José Fróis decidi não fazer serviço no velho Hospital local descentralizando a prática clinica para zonas mais periféricas onde as carências eram maiores. Assim a nossa maior actividade foi em V. N. de Ourém e Ferreira do Zêzere.
No Concelho de V. N. de Ourém realizaram-se 5607 consultas, Urgência Médica, Pequenas Cirurgias e apoio ao internamento do Asilo de V. N. de Ourém.
No Concelho de Ferreira do Zêzere, após se por a funcionar um Centro de Saúde realizaram-se 3126 consultas, Urgência Médica e Pequenas Cirurgias.
No Concelho de Tomar realizaram-se uma média de 240 consultas mensais, fez-se Medicina Escolar (1109 alunos das então Escolas Primárias e 288 do Ciclo Preparatório), Medicina do Trabalho (visita a fábricas no Concelho com levantamento das condições e rastreio cardiopulmonar).