segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Tropical Mood

Nesta semana de Setembro em que, inesperadamente, se faz sentir um calor quase digno dos trópicos, lembrei-me de aqui trazer um tema a condizer. "Begin the Beguine" foi mais um dos temas famosos escritos por Cole Porter (1891–1964), que o compôs ao piano no bar do Hotel Ritz de Paris. Em Outubro de 1935, faria a sua 1ª aparição pública através da voz de June Knight num musical da Broadway, “Jubilee” no Teatro imperial de Nova York. O tema viria a tornar-se um dos maiores sucessos da era do “Swing” e tem vindo a ser interpretado por inúmeros cantores de grande craveira – incluindo recentemente os REM que jogando com as palavras chamaram-lhe “Begin the Begin” no disco “Lifes Rich Pageant”. Fred Astaire e Eleanor Powell dançaram uma célebre versão instrumental no filme “Broadway Melody” (1940), Deanna Durbin cantou-o, em 1943, noutra fita (“Hers to Hold”) e, em 1946, foi a vez de Carlos Ramirez interpretar a canção na longa-metragem “Night and Day”. Curiosamente "Begin the Beguine” surge, em 1968, no filme “Yellow Submarine”, com os Beatles, durante uma conversa entre John e Jeremy. Mas para hoje escolhi uma soberba interpretação (2001) do grande pianista cubano Pepesito Reyes que, para além de ser o responsável pela linha melódica principal de “Guantanamera”, acompanhou nomes como Benny Moré, Duke Ellington, Nat King Cole e Tito Puente. Com 85 anos, Reyes continuava a tocar e encantar pelo mundo inteiro com o seu estilo marcado por um sabor tropical. É difícil resistir e não dançar este tema embalado pelo ritmo caloroso do “pianar” mágico de Pepesito Reyes (“even the palms seem to be swaying…”).
VT
...
When they begin the beguine
it brings back the sound
of music so tender
it brings back a night
of tropical splendor
it brings back a memory of green
I'm with you once more
under the stars
and down by the shore
an orchestra´s playing
and even the palms
seem to be swaying
when they begin the beguine
to live it again
is past all endeavor
except when that tune
clutches my heart
and there we are swearing to love forever
and promising never
never to part
a moments divine
what rapture serene
to clouds came along
to disperse the joys we had tasted
and now when I hear people curse the chance that was wasted
I know but too well what they mean
so don´t let them begin the beguine
let the love that was once a fire
remain an ember
let it sleep like the dead desire I only remember
when they begin the beguine
oh yes let them begin the beguine
make them play
till the stars that were there before
return above you
till you whisper to me
once more darling I love you
and we suddenly know what heaven we're in
when they begin the beguine

Begin the Beguine – Pepesito Reyes

sábado, 26 de setembro de 2009

A Árvore e o Espírito de Lugar.

Tal como as duas anteriores esta árvore tem mais de 300 anos, pertencendo a uma fase inicial da Mata das Caldas da Rainha da responsabilidade dos provedores dos séc. XVI e XVII. Situa-se logo abaixo (Poente) e à direita de quem desce vindo da captação AC2. Tem mais de 25m de altura e uma copa muito larga, destacando-se o diâmetro do seu tronco - muito superior ao dos outros Carvalhos em volta. Ficamos com ideia, dada a abundância desta espécie na Mata, que houve intenção de a previlegiar. Talvez porque possui uma madeira muito forte e resistente (daí a ser muitas vezes associado à representação da longevidade, e da sabedoria), ou devido às referências anteriores da sua ligação ao Sagrado. De facto, a Cultura Celta acreditava existir dentro do Carvalho um poderoso e benéfico espírito, possuidor de grande Força, Sabedoria e Resistência. Cada Carvalho funcionaria como um portal natural aberto para os demais seres para além das fadas que os habitavam. Sempre que se encontrasse um Carvalho viçoso, com certeza ali haveria um grande número de Fadas a proteger o Local e a Árvore. A Bíblia usa esta árvore como referência pelo menos 23 vezes e os romanos consagraram-na a Júpiter tecendo, a partir da sua folhagem, as coroas dos heróis. Na Idade Média era objecto de culto (era a árvore de Robin dos Bosques) e ao longo dos séculos, o carvalho foi a árvore florestal mais importante da Europa, protegida e cultivada sempre que possível. Actualmente já não existe este cuidado mesmo que se sinta uma mudança de mentalidades. Os carvalhos produzem uma madeira mais valiosa que todas as outras e formam uma floresta, do ponto vista ecológico, preferível. São árvores admiráveis que podem atingir os 400, 500 anos e, por vezes, os 800 anos de idade. Os japoneses têm um provérbio que diz que o "carvalho leva 300 anos a crescer, 300 anos a manter-se adulto e 300 anos a morrer". Os carvalhos têm vindo a rarear na flora europeia e perderam, neste momento já, a gloriosa importância de outrora. E os carvalhos seculares, como as grandes jóias da arquitectura que mãos piedosas carinhosamente ergueram, pertencem ao passado. Se desaparecerem jamais se substituem. O carvalho permanece, no entanto, como um símbolo com significado espiritual e um bem valioso.
Bem gostaríamos que o efeito protector que os antigos acreditavam existir se manifestasse agora. De facto este é um tempo decisivo para todo o Património Termal das Caldas da Rainha – que inclui a Mata, e cujo futuro irá, certamente, ser estudado e equacionado tal como anunciado pelo Ministério da Saúde. Fala-se em fim de ciclo. Mas será então importante que em novo ciclo se procure manter toda uma herança patrimonial, transmitida ao longo de gerações durante mais de cinco séculos, que tem como origem o legado da Rainha D. Leonor e sucessivas doações da própria população. E essas doações, e respectivas intervenções urbanísticas, obedeceram quase sempre a uma estratégia global e integrada para todo o Património Termal, articulando, ao longo do tempo, de um modo complementar e sinérgico as diferentes peças que compõe a actual Estância Termal das Caldas da Rainha. Aquele princípio que se tem transmitido, desde os antigos Provedores até à actualidade, em que a manutenção da unicidade física e funcional de todo o actual Património Termal das Caldas da Rainha é uma herança a preservar – é afinal uma mais-valia fundamental para a estratégia termal e concelhia. Assim os Caldenses o compreendam.
VT
O Fortuna (Carmina Burana) – Carl Orff

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Um Bom Gigante

Este pinheiro manso, de porte fora do comum (tem mais de 30m de altura quando em geral esta espécie não ultrapassa os 20m) , situado na Mata das Caldas logo acima (nascente) da captação AC2, tal como o cedro do “post” anterior, deverá ter mais de 300 anos, De facto, tal foi a opinião dos especialistas, como o Professor Fernando Catarino durante visita que efectuou a este espaço verde - quando ainda era responsável pelo Jardim Botânico de Lisboa. Isto torna-o mais um caso único já que habitualmente esta espécie não ultrapassa os 250 anos de vida. Teria sido portanto, durante o Sec. XVII que este bom gigante iniciou a sua vida. Um século em que a vila tinha apenas 193 fogos e cerca de 800 habitantes (1656), em que o Infante D. Afonso e D. João IV vinham tratar-se com as água termais, e em que o Hospital Termal era administrado por Provedores, como Frei Jorge de São Paulo que viria a falecer, em 1664, depois de nos ter deixado uma obra fundamental: “História da Fundação deste Hospital Real”. Frei Jorge de S. Paulo que descreve, deste modo, os terrenos arborizados que rodeavam, então, o Hospital e às quais se tinha acesso através de uma “escadaria a norte da sala dos Reis”: “… Dilatados bosques, alegres jardins (…) depositado tudo no coração do grandioso circuito deste generoso Hospital, cercado todo em torno de fortes muros capazes de sua segurança e guarda dos frutos que a natureza produzir e a humana industria beneficiar; recreação ordinária dos religiosos que nem sempre ocupam os oratórios com suas pessoas pois se reservam horas para descanso da humanidade que para esse honesto fim se plantam amenos bosques e bem sombreadas alamedas, se cultivam jardins e se buscam as correntes das cristalinas águas… ”. Recentemente houve que libertar este venerável pinheiro de vários arbustos “infestantes” que tinham surgido em sua volta impedindo a sua adequada iluminação. Imaginamos pois que antes de estender os seus braços como tentáculos ao vento e as suas raízes descerem por entre constelações subterrâneas e outros mistérios na profundidade da terra, a sua juventude atravessou o segredo do bosque das Caldas, embalada pelo eco dos sinos da Igreja do Hospital nas manhãs que entravam pelos campos adentro.
VT


Bells Across The Meadows - Albert W. Ketelbey

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Árvore Centauro

Este cedro imponente, qual centauro de madeira, é uma das mais antigas e importantes da Mata das Caldas da Rainha. Terá mais de 300 anos e só algumas pessoas de mãos dadas conseguem abranger o seu tronco. Faz parte de um núcleo restrito de árvores ilustres e mais “veneráveis” que integra aquele espaço verde de grande importância local (o aquífero de água termal com características singulares – à escala planetária – percorre o seu subsolo), e que serão tema de futuros “posts”, onde merecerão destaque, também, um pinheiro manso e um carvalho que já existiam desde a mesma altura, portanto muito antes da requalificação efectuada pelo Administrador do H. Termal, Rodrigo Berquó, no final do séc. XIX. Situa-se junto ao topo norte do jardim da Rainha e é, certamente, um dos “tesouros” a respeitar e acarinhar de um modo especial dentro da Mata Rainha D. Leonor. Há quem diga que o cedro cresceu tanto porque conversa, lá de cima, com os deuses. Quem o abraça fica convencido.
VT

Mythodea, Movement 5 – Vangelis com Kathleen Battle

domingo, 20 de setembro de 2009

Claridade

Janis Ian (n. em 1951) foi uma das compositoras e intérpretes norte-americanas mais interessantes das décadas de 1960 e 1970, continuando a actuar e a gravar até aos dias de hoje. Ella Fitzgerald considerou, Janis, na altura, a melhor jovem intérprete dos EUA. De facto, Janis, que começou a carreira aos 13 anos, tinha um enorme talento e era uma autêntica “força da Natureza”. As suas actuações ao vivo eram apaixonantes. A audiência ficava submergida por uma emoção que levava muita gente às lágrimas perante a paixão que Janis colocava nas suas interpretações. Um sopro mágico varria o auditório quando ela cerrava os olhos e começava a cantar, entrando nos silêncios mais profundas de cada ouvinte. Julgo que não foi suficientemente apreciada em Portugal e hoje quase ninguém a conhece (com excepção de um reduzido número de apreciadores – entre as quais me incluo). Por isso hoje trouxe Janis interpretando ao vivo (não podia deixar de ser) aquele que foi talvez o seu maior sucesso: “At Seventeen” - foi nº 1 no Billboard Adult Contemporary chart e nº 3 no Pop Singles chart em Setembro de 1975, vencendo o Grammy Award for Best Female Pop Vocal Performance em 1976, à frente de Linda Ronstadt e de Olivia Newton-John, tendo sido ainda nomeado como "Record of the Year" e "Song of the Year". Trata-se de uma canção, escrita durante 1973 e gravada no ano seguinte, sobre o sofrimento de uma adolescente que se sente incompreendida e só, julgando que ninguém repara nela e nunca viria a ser cortejada (“love was meant for beauty queens”) por algum colega do liceu (“Valentines that never comes”). Como se existisse, para ela, apenas um caminho sem saída e onde se descortinava apenas o nevoeiro das desilusões. Não reparava ainda que afinal há uma claridade âmbar iluminando um espaço sépia sem tempo que habita dentro de nós. Brilha mais quando ouvimos "At Seventeen" cantado por Janis Ian.
VT
“To those of us who knows…”
At Seventeen – Janis Ian

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

The only road

Richard Hawley (n. em 17 de Janeiro de 1967 – Sheffield, UK) é um excelente guitarrista, cantor e compositor. O seu talento é amplamente reconhecido no estrangeiro. A sua voz impressiona, sendo quase uma “actualização” de Roy Orbison, e as suas canções sumptuosas têm tido merecido destaque no estrangeiro. O seu talento e influência têm sido referenciados pelos consagrados REM, Coldplay, Radiohead e outros. Como em Portugal é praticamente (e injustamente) um desconhecido entendi por bem divulgar mais um dos seus sucessos como forma de alertar os meus visitantes e amigos para este intérprete (já em posts anteriores coloquei outros 2 exitos de Hawley: “Valentine” em 10/5 e “The ocean” em 19/6). Após fundar algumas bandas enquanto estudante, Richard tocou com os credenciados Pulp que descobriram as suas qualidades através de um dos seus elementos (Jarvis Cocker). Impressionados por uma gravação caseira das suas canções, Jarvis e Steve Mackey, “empurraram-no” para um álbum (2000) que viria a ser o 1º dos cinco que até agora publicou. Com o nome de “Richard Hawley” o disco foi notado sobretudo devido à canção “Coming Home”. Em 2001 sairia Late Night Final (com o “hit”: "Baby, You're My Light") que recebeu os melhores comentários dos críticos musicais. O disco seguinte: “Lowedges” (“Run for me” e The only road” foram os grandes temas desse disco) sairia em 2003. O NME nomeou-o como o 1º grande álbum de 2003 e ficou no top dos melhores do ano segundo a Virgin Radio. Por todo o lado a crítica rendeu-se ao trabalho de Richard. Em 2005 o seu álbum “Cole´s Corner” (“The Ocean”, "Just Like the Rain", "Born Under a Bad Sign", "Coles Corner", "Hotel Room") foi nomeado para o “Mercury Prize” (os Arctic Monkeys que viriam a ganhar esse galardão exclamaram “someone call 999 – Richard Hawley has been robbed!”). Em 2007 sai outro álbum fantástico: Lady´s Bridge (Lady´s Bridge , "Tonight the Streets Are Ours", "Serious", "Valentine", “Lady´s Bridge” e em 2008 Hawley foi nomeado: “O melhor intérprete inglês”. Está prevista a edição, em 21 de Setembro deste ano (mal podemos esperar) do seu 6º disco “Truelove´s Gutter”. Todos os discos têm composições originais, do próprio Hawley, atravessadas por uma nostalgia feita de estradas solitárias e de amores nunca alcançados. A canção que escolhi é uma das minhas preferidas (tive que fazer o “upload” para o Youtube – onde não constava) e na qual se destaca um fabuloso solo de guitarra… que desperta uma vontade enorme de dançar… VT “So, please keep me in your heart…”
The only road – Richard Hawley

sábado, 12 de setembro de 2009

Sinais


There's a summer place
Where it may rain or storm 
Yet I'm safe and warm
For within that summer place
Your arms reach out to me
And my heart is free from all care
For it knows
There are no gloomy skies
When seen through the eyes
Of those who are blessed with love
And the sweet secret of
A summer place
Is that it's anywhere
Where two people share
All their hopes
All their dreams
All their love
There's a summer place
Where it may rain or storm
Yet I'm safe and warm
In your arms, in your arms
In your arms, in your arms
In your arms, in your arms.

Words by Mack Discant, music by Max Steiner. From the 1959 film, A Summer Place, starring Sandra Dee and Troy Donahue. #1 hit instrumental for Percy Faith in 1960. Lyrics as recorded by The Lettermen in 1965 (#6)


A Summer Place - The Lettermen

Prémio II

É sempre ingrato atribuir prémios quando tantos Blogs de qualidade existem. Há muitos que o mereceriam também. No entanto na impossibilidade de incluir mais, e na sequência do post anterior devo atribuir o "Vale a pena..." apenas a 10 Blogs. Não considerei Blogs de autores consagrados e ou de venda de fotografias, serigrafias, etc. Por outro lado há Blogs que me parecem excelentes mas só como agora os estou a começar a seguir necessito de os conhecer melhor.
Pedindo desculpa de não conseguir nomear todos os que desejaria indico:
O que eu andei ... Alice atrás do espelho EXTERNATO RAMALHO ORTIGÃO - ANTIGOS ALUNOS Toque d´Alma amatamari Céu Aberto Miradas y Palabras mariabesuga Momentos de la Vida Primeiramente

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Prémio I

O excelente blogue Catharsis que vos convido a visitar, atribuiu ao "Heavenly" um prémio que me sensibilizou. O "ficar de olho" é uma distinção que vai passando de Blog em Blog. Como? Cada Blog nomeado, por sua vez tem que nomear outros 10 que mereçem a melhor atenção dos viajantes da Blogosfera... O meu muito obrigada à Ana Paula por este gesto, o qual constitui um estímulo para continuar e melhorar esta experiência chamada "Heavenly".
Na sequência desta nomeação, devo indicar 10 blogues que considere "valer a pena ficar de olho" como diz o "selo" recebido. Vou ponderar... Os Blogs nomeados pelo "Catharsis" foram: Branco no Branco Heavenly Ferreira de Castro Um Mundo Infestado de Demónios Continuando Assim Contracenar Deserto do Mundo Pretérito mais-que-perfeito Triunfo d'Arte Paul Auster

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Praia solitária II

Houve um Verão longínquo em que quase habitei, durante cerca de 2 meses, numa praia solitária. O areal imenso e desértico era ponteado pelas minhas pegadas e por algumas rochas que, na maré vazia, se organizavam em piscinas naturais. Nu, percorria o passeio de areia molhada num ritual de conchas e sal. Ao fim da manhã ia até um pequeno restaurante-cabana de madeira e colmo, construído pelos pescadores locais no sopé da falésia onde as escadas de terra batida desaguavam na praia, e ali acabava por almoçar. O ar era invadido, então, pelos odores de moreia frita, sargo na brasa e outros peixes cozinhados logo após a pescaria diária. Nas horas de maior calor refugiava-me na frescura de uma ravina entre falésias – onde pinheiros e figueiras estendiam silêncios e sombras. Sob o aroma de resina, de pinhões e das folhas das figueiras deliciava-me com pêssegos suculentos - cujo mel escorria abundante pelo meu rosto enquanto os trincava com volúpia. O silêncio era interrompido apenas pela vibração das cigarras e pelo eco longínquo da cavalgada das ondas. Tempo infinito, em frente do horizonte, saboreado minuto a minuto sem necessidade de abrir a caixa dos sonhos ficcionados - porque o sonho estava lá. Mergulhava no dourado do sol no oceano e quando a noite chegava: apanhava-me a flutuar na cintilação do luar na superfície da água do mar – à espera das estrelas cadentes. Mais tarde no meio do deserto da noite, enquanto esperava o oásis do amanhecer, o meu corpo escurecia mais (como o mar) deitado na cama da areia. A brisa nocturna vinha suavemente acariciar os sentidos transportando o sonho no qual uma desconhecida, que esperava, me encontraria finalmente. A paisagem tornou-se, com o passar dos dias, cada vez mais transparente, permitindo-me entrar dentro dela ao mesmo tempo que a sentia dentro de mim. O eco da praia morava na serenidade especial que se instalou no meu peito.
Hoje no lugar daquela praia solitária existem aldeamentos desordenados, turistas, barulho e muito lixo. As praias solitárias estão a desaparecer na paisagem – dentro de nós também. A brisa, essa… continua.
VT
Light as the breeze - Leonard Cohen

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Atmosfera

Melancolia de néon verde na vertigem da noite de açúcar
Na cidade das estátuas que sonham
Navios que partem quando chegam
Brisa quente e perfumada de especiarias
Pedaços de lua nos olhos dos amantes
Tâmaras maduras no sabor dos corpos
Beijos cintilando na atmosfera tropical
Eco de desejos na transparência do ar
Flores escritas no crepúsculo com aparo antigo
Estrelas que caiem no mar iluminado pelos pássaros
Murmúrio de conchas no silêncio das lendas e dos seixos
Sob o suave acenar das folhas das palmeiras
Dancemos… 


Dance Me To The End of Love - Leonard Cohen

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O sabor da noite

a noite chega na respiração da maré anunciada pelo rumor das luzes da cidade ao longe invade suavemente o espelho da areia molhada ao lado do Silêncio o entendimento é perfeito porque hoje não há palavras nos lábios do mar tempo de redescobrir a magia de ficar de mãos dadas cheias de pétalas por dentro do sabor da noite os dedos por cima e dentro de outros assim… como se fossemos os únicos habitantes de uma ilha deitada sobre a eternidade
VT

Stand by me – Ben E. King

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

1955

(Foto do autor por fotógrafo desconhecido, em 1955, no Liceu de Pedro Nunes)
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Enganava-me quando no início de 1955 julgava que iria ser um ano sem diferenças significativas dos imediatamente anteriores. Os lares modernizavam-se com o plástico - que iniciava aqui a sua invasão pelo mundo. Desde a “fórmica” laminada e colorida para todo o mobiliário até aos gira-discos, gravadores, electrodomésticos ou adereços de moda – tudo se começou a plastificar. Ao mesmo tempo a indústria automóvel “acelerava” e ao modernizar-se passou a contribuir definitivamente para o aumento de CO2 na atmosfera. Não existia a consciência das consequências ambientais que ambas as situações viriam a determinar na actualidade. Por outro lado desenvolvia-se um novo tipo de consumismo: o dos electrodomésticos. Outro acontecimento significativo, sobretudo analisado agora, foi o aparecimento, nesse ano, da televisão em Portugal com as primeiras experiências nas Feiras Populares (Lisboa e Porto) e a criação da RTP (as emissões regulares só se iniciariam dois anos depois). Como todos sabemos agora a televisão viria alterar muito os nossos hábitos com consequências sociológicas inimagináveis naquele ano. As pessoas passaram a telesintonizarem-se e a telesonharem. A convivialidade diminuiu, bem como a ida ao Cinema e Teatro, a publicidade tornou-se ainda mais invasiva e condicionante, e os Bancos começaram a substituir os cafés tradicionais, instituindo uma nova ordem bancária que viria a desenvolver-se até ao recente “crash”. Outro facto importante, porém, verificou-se a nível musical - em consequência de vários factores: As Sociedades de Recreio despertavam e animavam-se com um maior número de “bailes” devido ao aparecimento de uma grande novidade: o disco de 45 rotações que permitia o acesso mais democrático aos êxitos musicais. Ao mesmo tempo os jovens seguiam a moda ditada por figuras como Marlon Brando com casaco de cabedal e de James Dean com óculos Ray-Ban e jeans (morre nesse ano, depois de fazer a Este do Paraíso, ao volante do seu Porche) e começam a ouvir uma música marcada por um ritmo novo: o Rock´n roll. Num ano em que faziam êxito canções calmas e românticas como: A Blossom Fell (Nat King Cole), Only You e Great Pretender (Platters) e It´s Magic (Doris Day), surgiu o contraste “explosivo” de…
Rock Around the Clock interpretado por Bill Halley.
Canção composta por Max Freedman e James Myers, em 1952, foi gravada por Bil Halley em Abril de 1954 e publicada como lado B de um 1º disco, pretendendo integrar a banda sonora de um filme com o mesmo nome. No entanto torna-se emblemática no filme de 1955: “Blackboard Jungle” intitulado, não por acaso, pela Censura portuguesa como “Sementes de Violência”. Os jornais portugueses classificam o Rock´n Roll como dança “animalesca” e procuram conotar a música com uma “Juventude delinquente, transviada e rebelde”, fazendo ao mesmo tempo a apologia das virtudes da valsa ou do pasodoble. Sendo certo que o Rock´n Roll não começou com Rock Around the Clock, pois as suas raízes remontam a anos antes - no fermento do Rythm and Blues, foi no entanto esta canção que estabeleceu o contacto definitivo do Rock´n Roll com a Juventude, despertando-a não só para um ritmo que não conhecia, mas também para trilhar, eventualmente, caminhos mais libertários. De facto o Rock´n Roll acabava por ser uma maneira de contestar “o mundo injusto que os mais crescidos criavam” e que, esse sim, continha na altura, como vimos, “sementes de violência” (início da invasão da plastificação, desenvolvimento da indústria automóvel poluente, da televisão, de um consumismo cego e de uma ordem bancária perversa). Embora não sabendo ainda que não conseguiria modificar esse mundo, nesse Verão, de 1955, tentei compor o cabelo com Brylcreem e usei a minha primeira água-de-colónia (antes só sabonetes): Lavanda Ach. Brito, e fui ouvir o disco de Bill Halley, a uma festa, com um grupo de amigos, dado que um deles tinha conseguido trazê-lo dos EUA (só chegaria a Portugal, uma remessa de apenas 25, em Janeiro de 1956). Ia com estrelas no olhar e um sorriso mágico. Acreditava que era o 1º dia de um novo mundo melhor que começava.
VT (Este texto é uma “short version” de outro mais desenvolvido, também com o mesmo título (1955), publicado no Blog ERO)

domingo, 23 de agosto de 2009

O Lago do Parque

Na sequência da reordenação e criação de novos espaços verdes em redor do H. Termal das Caldas da Rainha, feita por Rodrigo Berquó, no final do Sec. XIX, foi inaugurado o lago do Parque D. Carlos I. Ocorreu em 1892 e foram necessárias 10.000 pipas de água para o encher. Simultaneamente foram criadas vários divertimentos para a época balnear. Um dos mais concorridos era o das “regatas” que se organizaram a partir do ano seguinte. Os jornais Caldenses noticiavam durante o Verão quais as equipas (masculinas e femininas) vencedoras em cada corrida. Sobretudo concorriam os jovens das elites caldenses e do “jet set” lusitano da altura que frequentava as Caldas – acompanhando as estadias da família real. O público assistia em redor do lago ou na “ilha” central. Cada passeio de meia hora custava 200 réis. Em 1906 surgiram gôndolas – maiores e mais difíceis de manobrar. Foram substituídas por isso e até, pelo menos à década de 1920 ainda ocorriam corridas de barcos a remos. Hoje não há regatas mas o carrossel dos barcos continua a circular em redor do Lago do Parque, como se estes executassem uma valsa sem fim, acompanhados pelos cisnes, quase recreando, por vezes, situações que nos recordam imagens do princípio do Sec. XX. Óptima ocasião para nos sentarmos com todo o tempo que afinal temos e pintarmos com os olhos.
VT

Swan Lake - Tchaikovsky

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O Jardim da Rainha

Julgamos que o denominado Jardim da Rainha foi (re)criado, depois de 1891, aquando da reordenação dos espaços que viriam a ser o Parque e a Mata das Caldas da Rainha, no final do Sec. XIX, projectada e mandada executar por Rodrigo Berquó, integrando uma estratégia de complementaridade de equipamentos de lazer com o Hospital Termal. A Rainha a quem foi dedicado este pequeno jardim foi, muito provavelmente, a Rainha D. Amélia que, nesse tempo, visitava frequentemente as Caldas acompanhada pelo seu marido: o rei D. Carlos I – cujo nome foi atribuído ao Parque. Tenho a opinião de que a concepção deste Jardim obedeceu a uma lógica precisa. Por um lado está situado quase como uma charneira/transição entre o Parque e a Mata e em frente do Palácio Real que albergava a família real durante as suas estadias, e por outro foi construído um pequeno miradouro, num plano superior, com gradeamento sobre o jardim, onde várias cadeiras proporcionariam a contemplação daquele espaço. Acresce que alguns dos muros que rodeiam o jardim foram dotados, na face superior, de goteiras onde escorria água para os pássaros, cujo habitat era a Mata, virem beber. A vegetação e as flores obedeceram também ao mesmo critério. Isto é, atrair aves ou insectos propiciando o espectáculo “ao vivo” da Natureza aos olhos de quem se sentava no miradouro. Assim a família real poderia assistir, como se estivesse num camarote, ao desenrolar da interacção de insectos polinizadores junto das flores bem como à observação dos pássaros. Para este efeito, foi colocada no centro do jardim um Eucalipto de flor vermelha (Corymbia Ficifolia), espécie de árvore oriunda da Austrália que possui floração abundante no Verão, de coloração vermelha, e que desprende um aroma intenso, atraindo borboletas, abelhas e outros insectos. Não deixamos ainda de fazer notar o simbolismo da árvore no meio do jardim. Como se tivesse existido a intenção de fazer lembrar o jardim do Paraíso com a árvore do Conhecimento do Bem e do Mal no meio. Este jardim viria a ser destruído, quase na totalidade, por um ciclone, em Fevereiro de 1941, e depois invadido por plantas infestantes. Porém a árvore central resistiu, embora atingida, em determinado momento, pela queda de uma outra. Tive o privilégio de, enquanto Director do Centro Hospitalar das Caldas da Rainha, desencadear o processo para a recuperação do Jardim da Rainha – que ficou concluída em 2005.
VT

A Blossom Fell – Nat King Cole

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Walk in silence

O silêncio de uma árvore viva que se debruça de braços abertos
Uma árvore morta transformada em banco vazio
Sempre iguais no espaço
Simplesmente estão
Serenidade
Pássaros
Vento
Sinais
Lugar
Eu
Todos
Porta aberta no Universo

From Gardens Where We Feel Secure - Virginia Astley

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Enquanto

Enquanto as gotas da chuva caiem no pátio lá fora
Enquanto sinto o teu corpo debaixo da colcha vermelha
Enquanto te recolhes na noite azul dos meus abraços
Enquanto acaricio a luz do Verão em ti
Enquanto, lentamente, beijo os teus beijos
Enquanto te perdes dentro do meu deserto
Enquanto percorro os caminhos da tua pele
Enquanto flutuas sentada em mim
Enquanto abres as asas do teu desejo
Enquanto voamos nas cores do prazer infinito
Enquanto os nossos corpos explodem numa música impossível
Enquanto sonhava tudo isto não sabia que te iria encontrar
Por pouco não nos víamos
VT

Fly me to the moon – Nat King Cole

domingo, 16 de agosto de 2009

Lagoa adormecida

Sleepy Lagoon foi criada pelo compositor inglês, Eric Coates. A letra seria escrita mais tarde pelo americano Jack Lawrence que entusiasmado tentou convencer os “patrões” da editora Chappell a publicá-la. Foi recusado com a alegação que não seria popular e seria mais adequada para uma peça clássica “light”. Isto passava-se em 1940, em plena II guerra mundial, tendo sido extremamente difícil contactar Coates. No entanto este gostou da letra de Jack que acabou por apresentar a canção a Harry James - na altura já liderando a sua própria orquestra após ter tocado primeiro com Benny Goodman. Harry James orquestrou-a juntando uma secção de cordas ao seu trompete e o tema “explodiu” como um dos principais “hits”, em Abril de 1942, tendo-se mantido em 1º lugar durante 18 semanas. Foi também gravada, mais tarde, por Dinah Shore, Glenn Miller, Platters, etc. Foi tema de introdução de um programa de rádio, na década de 1950, em Portugal (tal como o samba Delicado tocado pela orquestra de Percy Faith). É um clássico que ainda hoje inspira ouvintes e dançarinos. Aconselhável aos românticos incuráveis, sobretudo àqueles que podem usufruir, também, do privilégio de assistir ao luar em frente de uma Lagoa.
VT
Sleepy Lagoon - Harry James