terça-feira, 21 de julho de 2026
O Caminho do Olhar. A década de 1970. Onde se encontra Eduardo Gageiro e se descobre Tony Ray-Jones. As primeiras lições.
Após a conclusão do curso de Medicina o meu pai ofereceu-me uma Nikon F2 e comecei a fotografar os bastidores de circos ambulantes em Lisboa, os Hospitais Civis de Lisboa (HCL) de então, as denominadas casas de repouso para a terceira idade – que mais não eram do que antecâmara da morte -, os graffitis nas paredes após o 25 de Abril e o primeiro ano (1975) do Serviço Médico à Periferia (SMP). Usava o Kodak Tri-X para o P&B e a saudoso Kodachrome 25 para a cor.
As imagens nos diferentes serviços dos HCL, bem como as de casa de “repouso” e as do SMP ganharam, em 1978, forma de livro com o título “Da Vida e da Morte”. Tinha uma nota escrita pelo Professor Fernando Nogueira e nunca viria a ser distribuído pois a editora Mil Dias viria a envolver-se com a tipografia, numa disputa em tribunal, sobre a qualidade de impressão e acabamento.
Algumas das imagens dos HCL viriam a ser publicadas no livro “Eanes um Presidente” (2018) juntamente com fotos de Alfredo Cunha e Luís Vasconcelos. Felizmente, em 2013, foram recuperadas e publicadas no livro O Espírito dos HCL sob a responsabilidade da Comissão do Património Cultural do Centro Hospitalar de Lisboa Central.
A editora. Mil Dias comprou-me as fotos dos graffitis com cedência de direitos e viria a publicá-las (1978) no livro “Paredes na Revolução” sem referência ao autor das imagens. Aprendi com a minha ingenuidade de então e nunca mais repeti o erro de permitir que as publicações de fotos não respeitassem o respectivo direito autoral.
Logo após o 25 de Abril foi irresistível fotografar na rua António Maria Cardoso junto à então sede da PIDE/DGS onde houve confrontos e tiroteio. Aí encontrei o Eduardo Gageiro quando saía debaixo de um carro onde estivera abrigado de eventuais balas perdidas. Com a cumplicidade da proprietária de uma água-furtada, no prédio em frente do da PIDE/DGS, acedemos ao telhado e fotografámos, em contre-plongée, a prisão de agentes daquela polícia política. Mais tarde, já com a situação controlada pelos militares, entrámos para as instalações daquela organização repressiva. Lembro-me que um militar quis oferecer-me como “souvenir” um emblema, dourado e azul, daquela polícia. Não aceitei com receio de alguém pensar que eu era um elemento da PIDE.
Assisti ao Gageiro fazer a fotografia icónica do apeamento da foto de Salazar e aprendi duas lições. A observar e reagir no momento certo e a não imitar. Não fiz a fotografia por respeito - porque o Gageiro estava a fotografar e porque percebi que devemos procurar a nossa própria voz fotográfica e não imitarmos a dos outros. Infelizmente hoje, verifico que nas redes sociais se publicam frequentemente fotos que são cópias de cópias e a maior parte não revela um olhar fresco e singular.
Eduardo Gageiro viria, no mesmo ano, a convidar-me para expor as minhas fotos com as dele na livraria Bertrand no Chiado em Lisboa. Uma lição de humildade e de generosidade. Lembro-me que no mesmo espaço ocorria, simultaneamente, uma exposição sobre a vigarice cruel de “curandeiros das Filipinas” e dos seus pretensos milagres que em vez se salvar exploravam doentes terminais.
Curiosamente, na mesmo evento descobri e comprei na Bertrand o meu primeiro fotolivro. A primeira edição de “A Day Off” de Tony Ray-Jones publicada nesse mesmo ano. Uma inspiração fundamental no caminho do meu olhar - que mudou profundamente. Fiquei extasiado com o seu humor subtil, a ironia e a sátira sociais aliadas a enquadramentos inteligentes e complexos. Descobria a magia da imprevisibilidade e de descobrir os milagres no dia-a-dia aparentemente vulgar. Descobria finalmente que fotografar é um modo de pensar e iniciava a minha coleção de fotolivros.
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