segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O Poder dos perfumes

I wish you Love - Sacha Distel
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Confesso que sempre me fascinou o universo misterioso dos perfumes pela possibilidade de nos fazer sonhar. Quanto melhores mais emocionante e mágicos os momentos de sedução que lhes poderão ficar associados - tal como a música já que ambos falam a mesma linguagem (notas, composição, toque, órgão, harmonia, etc.). De facto podemos associar determinado aroma a pessoas específicas ou a momentos especiais guardados na nossa memória olfactiva. Os perfumes podem conter o poder de conferir uma qualidade extraordinária a alguém. Alguém que pode tornar-se mítica(o) quando a sua presença é anunciada por uma aura magnética fascinante, irresistivel e apaixonante que emana da combinação da fragrância que usa com a sua pele - desencadeando um encantamento feito de múltiplas sensações em nós. Ligados sobretudo aos afectos um perfume pode transformar um encontro, um enlace ou um beijo em algo de inesquecível que eleva os amantes e o amor para patamares de excepção. Um bom perfume é aquele que nos dá vontade de cheirar cada vez mais - sem parar, mantendo a sua tenacidade (ligada às notas de fundo) e o seu “rastro” durante um ou mais dias.
A alquimia dos odores pode transmitir-nos sensações ou conceitos como: a classe, o mistério, a doçura, o dinamismo, a sensualidade, a frescura, a tranquilidade - entre outros, que ficam “agarrados” às pessoas que os evocam através de perfumes específicos. Por outro lado a sedução também passa pelo efeito que o aroma tem sobre o próprio(a) utilizador(a), levando a sentir-se sedutor(a) ou audaz, capaz de se ultrapassar nas suas capacidades, etc. Por isso devemos escolher sempre as fragrâncias pelas sensações que nos despertam e reflectem e não pela publicidade ligada a uma imagem que muitas vezes não corresponde ao conteúdo dos frascos de perfume. Assim o aroma sublinhará melhor a nossa personalidade, fará parte de nós e pode tornar-se o odor da pessoa que adquire assim uma “aura” plena de códigos com uma linguagem que nos transporta e atrai a um mundo onde a cultura de sonhos é sublinhada por fragrâncias invisíveis. Em Paris há algumas casas que fabricam o perfume “à medida” da pele (que transporta e modifica odores) de cada pessoa compatibilizando os aromas com os óleos cutâneos e a personalidade de cada cliente (a confecção pode demorar até 6 meses).
Inicialmente produzidos a partir de elementos da Natureza (mormente flores) diluídos, numa primeira fase, em álcool (a 7% são águas de colónia, a 12% são águas de “toilette”, a 18% são “Eau de Parfum” e a partir de 20% são essências ou perfumes) - hoje fabricam-se essencialmente a partir de substâncias sintéticas, embaratecendo o custo e permitindo maior produção e massificação da utilização. Deste modo assiste-se ao declínio dos grandes perfumes e da perfumaria, sobretudo a partir de 1985. O que antes era obra de artesanato cuidado tornou-se uma indústria dirigida quase só ao lucro onde os aromas quase todos não possuem notas de fundo e persistência deixando só um cheiro a produtos sintéticos em todos os utilizadores que ficam todos a cheirar de modo igual ao fim de algumas horas. Por isso considera-se que hoje há poucos “grandes perfumes”. Outrora para fabricar 28 gramas do mais caro perfume de sempre - o célebre “Joy” (o Rolls Royce da perfumaria que era o preferido de Jackie Kennedy) - eram precisas 10. 600 flores de jasmim e 28 dúzias de rosas da Bulgária. Hoje os sintéticos são exclusivamente químicos e mais voláteis. As “notes de coeur” evaporam-se rapidamente. Consomem-se e cheiram-se rapidamente e desaparecem de igual modo. Por isso seduzem ainda os grandes perfumes produzidos no 1º quartel do Séc. XX - que surgem sempre entre os 10 melhores citados por diversas publicações (como p. ex. Shalimar - considerado pelos especialistas como o melhor perfume feminino de todas as épocas). Houve e há perfumes com histórias fantásticas associadas, e que nos contam grandes amores, grandes aventuras sobre pessoas fascinantes ou factos surpreendentes ligados ao seu aparecimento e utilização. O perfume continua a ser um cântico misterioso e poético da Natureza (celebrado por Omar Khayan e Baudelaire), onde podemos reencontrar os nossos jardins de infância, os lençóis perfumados de casa da avó, ou os lábios sedutores de um grande amor.
Mas… apesar de tudo ainda existem hoje bons “perfumistas” com paletas de odores com originalidade e qualidade. Atrevo-me a citar um bom e actual exemplo de uma fragrância de excepção citada frequentemente em diferentes livros sobre a matéria como um dos 10 ou dos 100 grandes perfumes de sempre: Eau d'Hadrien criado em 1981 pela célebre (infelizmente já desaparecida) perfumista francesa Annick Goutal (e talvez o seu maior êxito de sempre). Annick Goutal trabalhava, então em Itália onde criou um maravilhoso jardim olfactivo com frutas maduras ensolaradas às quais adicionou uma “nota” que desenha paisagens na Toscânia - “Les cyprès”. Esta fragrância reflecte o amor de Annick Goutal pelo Sul da Europa e encontrou inspiração nos ecos literários do romance "Memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar. Uma fragrância universal para os amantes do eterno que vogam entre o frescor dos cítricos, à sombra de um limoeiro na Sicília. Um perfume que ama a pele e a ternura com uma doçura quase infantil. Para ambos os sexos é composto por uma mistura de limão siciliano, toranja, tangerina verde, ylang-ylang e cipreste. Um ponto comum entre Sharon Stone, Leonardo de Caprio, Céline Dion e o príncipe Carlos.
É um dos meus favoritos - sobretudo nas manhãs de Verão ou perfumando os lençois da cama. Talvez porque a minha memória olfactiva recorda o marcado e agradável aroma fresco a limões que me rodeava e surpreendia quando, com poucos anos de idade, visitava a casa da Madrinha do meu irmão. Uma senhora alemã a quem ouvia chamar de Fraulein Elisabeth e que muito provavelmente veio para Portugal na sequência da 2ª Guerra Mundial e era colega de trabalho de meu pai. Todas as salas estavam impregnadas daquela fragrância (e impecavelmente arrumadas e superlimpas) fresca e acolhedora - ao contário de outras que visitava e que habitualmente cheiravam a comida cozinhada. Por vezes ainda sonho com o seu jardim de flores, que ficava nas traseiras, e onde entrava como se fosse um caleidoscópio perfumado onde sobre um fundo de aroma de citrinos estendia-se um mar colorido de pétalas onde abundavam as begónias semperflorens. Toda aquela paisagem olfactiva dava uma enorme sensação de bem estar que associo, naturalmente, ao aroma de limões - quando intenso.
«La nature et ses merveilles me guident. Mes émotions deviennent senteurs, j’ai nommé Parfum le rêve qui me porte» (Annick Goutal). 

6 comentários:

Anónimo disse...

Li o texto associado à imagem. Uma investigação profunda sobre perfumes e o assunto muito bem tratado. Parabéns, Vasco Trancoso.
Manuel Mendes

Anónimo disse...

Natureza viva? Que lindeza!
Deolinda Barros

Anónimo disse...

De que é feito o bom gosto?
Deolinda Barros

Anónimo disse...

Foto linda, com cores maravilhosas...
Maria Félix

Anónimo disse...

Li e gostei. Afinal fiz parte dessa história , bem escrita e com conhecimento!

L.S.A. disse...

Um tema muito perfumado e que logo me seduziu.
Desde há tanto tempo que me encanta o mundo dos perfumes!
Quando apareceu um determinado perfume que foi por mim elegido como "o meu" não mais mudei, Aquele é mesmo "o meu perfume".
Gostei do texto e dessa pesquisa sobre o assunto.
Parabéns.