quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Sobre a Arte do Retrato em Fotografia

Ahmed. Retrato de rua.

Alguns apontamentos sobre a Arte do retrato em fotografia.

1 - É sempre fundamental, como noutros géneros de fotografia, ver e estudar frequentemente os trabalhos de grandes fotógrafos e de grandes pintores. Quanto maior a Cultura estética maior a probabilidade de executar bons trabalhos. No campo da fotografia de retrato podemos começar por revisitar: Richard Avedon, Bert Stern, Inge Morath, Philipe Halsman, Bill Brandt, Mary Ellen Mark, Diane Arbus, Nan Goldin, etc.

2 – Praticar, praticar, praticar. A euforia de captar e editar rapidamente proporcionada pela era digital nem sempre é boa prática. Será importante não ficar “escravo” dos mesmos “presets” do Lightroom ou ACR, nem dos filtros do Photoshop. Quer a máquina fotográfica quer o processamento das imagens devem ser, de preferência, comandados pelo fotógrafo e não o inverso.

3 – Claro que há regras que devem sempre ser equacionadas e eventualmente adaptadas a cada caso. E cada caso é um caso. Muitas vezes diz-se que as regras existem para ser quebradas. É também um axioma a considerar sempre mas não fazer dele também uma regra imutável. Por exemplo fotos com horizontes inclinados e enquadramentos superestranhos podem comprometer a linguagem fotográfica para além do ridículo de ficarmos de pescoço torto para apreciar a imagem ou tentarmos entender uma pretensa mensagem onde as diagonais não levam o nosso olhar a algum lugar. É preciso senso fotográfico para distinguir a beleza ou a inadequação de framings ousados. Por isso a pertinência do ponto 1. Um enquadramento ousado e pouco banal é desejável mas é preciso ter um bom sentido estético para o fazer, destacando traços reveladores da personalidade do retratado e evitando, simultaneamente, retratos despersonalizados com enquadramento do tipo Bilhete de Identidade ou Passaporte.
Considerar pois as regras elementares de composição (terços, ponto de ouro, sentido condutor da leitura, diagonais, contrastes de luz ou de cor, etc.) eventualmente a aplicar e, simultaneamente, decidir bem sobre o plano (grande plano, plano americano, médio, geral) mais adequado a cada situação.

4 – A linguagem corporal / facial é fulcral nos retratos. Em consequência é importante que o fotografado adopte uma postura confortável. Quando as pessoas estão mais à vontade deixam escapar com mais facilidade traços essenciais da sua personalidade. Uma postura incómoda pode desencadear indesejáveis expressões de tensão.
Portanto quanto mais e melhor interacção com o personagem melhor a expressividade. Conversar primeiro e não ter pressa é um passo muito importante. A empatia e a confiança do fotografado podem proporcionar uma melhor exteriorização de expressividade.
No retrato de rua (como nesta foto) em geral identifico-me e peço autorização para fotografar e, em caso afirmativo, procuro uma breve troca de impressões que me dê alguma noção sobre o fotografado. Se o retrato foi colhido subitamente dirijo-me posteriormente à pessoa e mostro-lhe o retrato explicando que só o publicarei com o seu consentimento. Muitas vezes acabo a fazer outras fotos à mesma pessoa – já motivada – com expressões bem diferentes da inicial (caso desta e da próxima fotos aqui publicadas).

5 – A incidência, intensidade e tipo de luz (artificial ou natural) condicionam a qualidade do retrato. Todos sabemos do dramatismo ou da suavidade que a luz traz aos retratos. À luz alia-se outro factor importante: o que fica – e o que não fica – focado.
Por vezes basta focar e destacar apenas os lábios ou um dos olhos (sempre o mais próximo). Ficaram para a História da fotografia as célebres fotos de Bert Stern em que focam quase exclusivamente os lábios de Marylin Monroe ou o olho direito de Peter O ´Toole.
De facto, é nos olhos e nos lábios que pode residir a maior carga de expressividade – devido em parte aos complexos sistemas musculares que os suportam. Ao contrário as orelhas são pouco interessantes para um “close up” e, se forem muito salientes, podem funcionar como factor de distracção.
Como cada caso é um caso, deve competir sempre ao fotógrafo a decisão da opção mais correcta em cada retrato – atenta a personalidade / expressividade.
O impacto da expressão obtida pode, ou não, ser acentuado pelo plano de fundo.
Inge Morath, Mary Ellen Mark e Duanne Michaels fizeram, através de muitas das suas imagens, uma bela demonstração do bom aproveitamento e poder de contextualização do background. No entanto há casos em que pelo contrário o fundo, pela sua importância, pode distrair a atenção da expressão do retratado.
Esta procura do fotógrafo tentar “agarrar” a essência da personalidade alheia, na fotografia de retrato, faz lembrar que os chineses e árabes poderão ter alguma razão em não gostarem de ser fotografados com receio de lhes ser roubada parte da alma.

É o desafio de compreender de mais perto os outros que me tem motivado cada vez mais a desenvolver a fotografia de retrato. São momentos em que o destino, a autenticidade e as escolhas acabam por convergir e transcender o tempo.

1 comentário:

Natercia Cortes Amaro disse...

Muito interessante a explanação de toda a complexidade técnica para obter uma excelente fotografia retrato como esta.
Para uma pouco conhecedora,como eu,o que sobressai ao admirá-la atentamente é a enorme sensibilidade e sentido estético do fotógrafo em captar uma expressão ou um momento.