sábado, 27 de março de 2010

Bambus

Pelotão de lanceiros
Estratégia colectiva
Poesia geométrica
Alinhada e paralela
Na inclinação da luz
Entre a ordem vegetal
Um insecto rasteja
Junto ao aroma de malmequeres
O vento parou
Coisas simples que sempre lá estiveram
Ao longe os homens dormem
*

Mandara - Somei Satoh

4 comentários:

Anónimo disse...

“O bambu e a poesia são muito parecidos: neles imperam
todos os mistérios da infância, neles se percebe uma linguagem para
além do racional. O bambu e a poesia compõem-se como um arco de
simbolismo, têm uns verdores pênseis, umas alturas feitas de união.
Não existem sozinhos. Neles tudo é composto, colectivo. São castelos
que atraem o imaginário. Lá dentro: casa de insectos, de cobras, dos
monstros vários da fantasia. Lá dentro, portal para o tempo imóvel do
sonho. (…)
O vento é irmão do bambu, nele se solidifica, se
esculpe, nele se mascara de visível. Quando o vento quer aparecer,
brinca nos entremeios do bambuzal. Pouca coisa é mais música que isto.
A poesia tem uma irmã com o mesmo comportamento do vento: a palavra.
No bambu, o colmo oco guarda umas águas que não se sabe de
onde. Surge mínimo e em tempo pouco, já domina a paisagem.
Foram os bambus que trouxeram aos homens o futuro, o
nascimento imperioso do continuar sempre. Tudo isso também serve
para a poesia.
O bambuzal alastra-se por baixo da terra, é um guerreiro ávido,
faminto, vândalo com o solo, seus caules subterrâneos, sempre
invasores, sempre trabalhando na busca de novos territórios,
não desistem. Talvez por isso, o bambu não floresça. Tanto rouba da
terra os nutrientes, que foi castigado a não ter flores. Alguns
teimam, revoltam-se, querem sobre si uma primeira e última primavera. Para o bambu, florescer é morrer. Ainda hoje, os cientistas não
compreendem bem este processo.
Assim é a poesia, domina os escuros, cresce neles, às vezes aparece aos olhos e é apenas bela e necessária.
Outras vezes, é mais corajosa, vai além, floresce para alma. Sacrifica
o entendimento, quer ser um cosmo onde nada pode ser aprisionado pela razão. Onde tudo é feito para acariciar os sentidos.
A poesia e o bambu são empórios de surpresas: deles saem
flautas, varas de pescar, móveis, alimentos para os homens e para os
lêmures, combustível, papel, estão no Taj-Mahal como estão no
casebre. Estão na metrópole e dentro da floresta. Estão segurando
encostas e sentimentos, despoluindo rios, decorando casas e cabeças.
Os dois são fáceis de serem vistos. São diários. Estão aos olhos, por isso as pessoas que não entendem poesia, deveriam ter um bambuzal no jardim."

Rubens da Cunha, poeta e contista

Post Sui Generis…afinal, bambu e poesia de mãos dadas.
FC

Maria, Simplesmente disse...

VT:
Bambú a p&b só alguém muito imaginativo pode ver...!
É como recordações em "quarto escuro"... só vemos "elas" e mais nada...
Gosto.

Anónimo disse...

Possivelmente influenciada pelo som da musica, esta fotografia leva-me a lembranças de infância. Curiosamente, não sei se digo uma grande asneira ou não, mas tambem não importa...,mais conhecidas por "canas", surgiam junto aos campos cultivados ou perto de ribeiras/riachos e quase sempre eram consideradas plantas não desejadas,(quase uma praga) precisamente porque tinham crescimento rápido e em grande número. Lembro o aspecto denso, quase como uma floresta que nos encantava, que nos desafiava a tentar entrar.Com estas "canas" construiamos cabanas que depois cobriamos com folhagens e com muita imaginação; criavamos situações, brincavamos grande parte do tempo de nossas férias........,construiamos uma especie de "mundo á parte".
Sei que o bambu, tem variadissimas utilizações em diferentes sectores da vida e é de uma importancia vital para muitas economias....; sei que é uma planta misteriosa no seu comportamento, que possue ciclos de vida muito longos morrendo após a floração (que nunca cheguei a ver).
Quanto á poesia, ela, estará sempre de mão dada com quem tem sensibilidade, imaginação, criatividade, e sentimento de partilha, independentemente do lugar, do "objecto" e da "hora"/"tempo".... Bambus, uma "sociedade/colectividade", que naturalmente protege o "individuo", nunca deixando que ele exista isoladamente !!!!". Curioso, funcionamento.
AC

VT disse...

Obrigado FC Maria e AC por tb verem... a poesia nas entrelinhas dos caules e das palavras e sobretudo a lição de simplicidade e sentido do colectivo que a Natureza nos dá e o Homem não aproveita e replica para a própria Humanidade.
Bem hajam
VT