quinta-feira, 11 de março de 2010

Francisco

No início da minha carreira médica comecei a ver Doentes no seu domicílio ao serviço dos então denominados Serviços Médicos Sociais (actuais Cuidados de Saúde Primários). Nestas funções fui dedicando especial atenção aos idosos alojados em lares para a 3ª idade. Foram cerca de 8 anos percorrendo o sofrimento imposto – ou não – aos mais velhos. Algumas dessas casas pareciam autenticas câmaras de horrores, em que a proximidade da morte se percebia a cada passo, em cada rosto vazio, em cada corpo abandonado. O odor de roupa suja e de medicamentos impregnava o ar das salas sem janelas mergulhadas num silêncio sem a Esperança. Aos cantos como bonecos sem corda os velhos esperavam a vez, assistindo já indiferentes ao desbobinar do tempo restante. Havia, no entanto, uma casa em especial que me inspirava preocupação. Era como um armazém de idosos governado por uma megera esquelética e de boca retorcida que pigarreava constantemente o seu tabagismo. Sempre de preto gritava ordens em voz cavernosa a uma ajudante de olheiras profundas a boiarem no meio da tez esverdinhada. Essa casa tinha um pátio de cimento, nas traseiras, onde, para além de uma mesa plantada num canto onde uns velhos pareciam jogar dominó desde há séculos, havia uma porta de ferro sempre fechada sob a marquise. Uma vez reparei que a chave tinha ficado espetada na tal porta e – abri-a. Lá dentro havia um odor intenso a creolina e no meio da penumbra distinguia-se um vulto disforme que se arrastava, como as focas, pelo chão coberto de imundícies. Era o Francisco. O Francisco não tinha pernas. Tinha um esboço de pernas. Para não ferir os pés, enquanto se deslocava, atava-lhes umas placas de borracha que se assemelhavam a barbatanas. Como era paralítico, da cintura para baixo, para se mover atirava os membros inferiores para a frente, com um golpe de rins, apoiado nos braços fincados no solo. Com a ajuda de uma empregada menos antipática, lavámo-lo, enfiámo-lo em roupa lavada e demos-lhe uma cama num quarto com cinco velhotes como companhia. Explicaram-me (sem me convencer) que tinha ido temporariamente para a cave porque se tornara muito violento. A partir desse momento o Francisco elegeu-me como o seu protector e esperava ansiosamente a minha visita e a oferta de lembranças do exterior. Aquela que maior satisfação lhe deu foi um rádio portátil no qual ouvia, com fascínio evidente, os relatos de futebol. Pediu-me para lhe “tirar o retrato” a ouvir música e a olhar o sol e andou contente e calmo durante muitos meses. Até que um dia fui dar com ele muito nervoso e impaciente. Com alguma agitação avisava que os velhotes tinham morrido na semana anterior porque lhes deram calmantes demais para dormirem e não incomodar. Que os medicamentos que receitávamos não eram administrados ou eram-no incorrectamente. Que todos se calavam com receio de serem os próximos cadáveres. Não queria que eu visse a tensão e auscultasse. Queria antes que eu o tirasse dali para fora. Numa breve investigação não consegui alguma confirmação e percebi que seria, obviamente, muito difícil comprovar a teoria do Francisco. Nesse dia ia partir para férias e tentei acalmar o Francisco prometendo-lhe que quando regressasse iria estar mais atento e eventualmente tomar as providências necessárias. Foi um Verão com muitos pesadelos em que caravanas de velhos e de velhas me agarravam e puxavam por entre suspiros e, ainda, com o rosto triste e manso do Francisco - quando dele me despedira. Quando voltei não me espantei quando me anunciaram que o Francisco tinha, entretanto, morrido “do coração”. Durante muito tempo carreguei sobre os ombros a interrogação terrível se poderia ou não ter feito mais. Quase um sentimento de culpa e dívida para com o Francisco que nunca passou. Hoje, passados muitos anos, aposentei-me da carreira médica hospitalar e olhando o balanço do que fiz por muitos Doentes, tento resgatar, de certo modo, uma dor funda e antiga. Ouvindo música e olhando o sol, julgo poder dizer-te, Francisco, que nunca mais cheguei tarde.
-

Accentus (Samuel Barber) - Agnus Dei

14 comentários:

mena narciso disse...

Boa noite,Dr.....é muito doloroso...mas a verdade é k temos por aí muitos «lares»....k se dizem «lares»,mas mais ñ são k corredores de velhinhos perdidos e esquecidos esperando a sua hora....é lamentável ainda existir coisas desta natureza.
Mena Narciso,Caldas da Rainha

luis disse...

Um relato evidentemente sentido...e uma reflexão final, que pelo humanismo implícito, é empática e contagiante. Obrigado pela partilha.
Perdoa-se até alguma pequena omissão...é que, para o Francisco ficar tão feliz a ouvir os relatos de futebol, só podiam ser os do Benfica!

J J disse...

Também por motivos profissionais conheço variados estabelecimentos desta natureza. Alguns são verdadeiras antecãmaras da morte, onde, mais que os maus tratos, revolta a indiferença e a falta de sentimentos com que as pessoas são tratadas, como se já não fossem humanos.
Por vezes por impotência, outras por indolência, vamos todos fazendo pouco para modificar as coisas.
Claro que há excepções, estabelecimentos com boa qualidade, mas normalmente a preços incomportáveis para a maioria da população.
Excelente artigo, rompendo um pouco com o tom contemplativo deste blogue, mostrando que também com a pena, e não só com a máquina, o VT é um artista sensível.

Hugo de Macedo disse...

É normal esse tipo de questão, quando nos dedicamos ao que fzaemos. Queremos ser sempre melhores e queremos sempre dar o melhor de nós mesmos, em todas as situações. E quando acontece este tipo de coisa, questionamo-nos sempre sobre se poderíamos ou não ter feito melhor...essas questões são normais, em quem procura a perfeição. De certeza que o Francisco, enquanto vivo, não teve "apenas" um médico mas também um amigo. E isso é das coisas mais preciosas.

Abraço.

Eva Gonçalves disse...

Este texto, extremamente comovente, de partilha, sensibilizou-me profundamente. Talvez o que se lamenta de não ter feito pelo Francisco, tenha feito com o peso dessa possível culpa, que acabou por ser também uma lição, por muitos outros doentes VT. Tenho fé que sim, e pelo seu próprio punho, nos confirma. Não se culpabilize... pois a inexperiência médico nos primeiros anos, ditará em muitos casos, erros, principalmente, no que diz respeito a ouvir os doentes... e é compreensível que assim seja, são humanos também, não são infalíveis. Neste caso, não foi um erro médico, técnico, que poderia ter sido de qualquer um, nessa situação. E quem sabe, se teria sempre o mesmo desfecho... ninguém garante a veracidade das suas alegações... nem a diferença que pudesse fazer, alguma intervenção mais activa da sua parte... e muitos outros doentes, terão tido a sua atenção individualizada, mais atenta. Ficou este episódio aqui relatado... ficou a humanidade com que exerceu sempre a medicina, e a sensibilidade de um homem, que hoje, pudemos ficar a conhecer um pouquinho melhor neste blogue. Obrigada VT. Bem haja! Abraço

Anónimo disse...

"O Sentido da Pessoa Humana", é uma caracteristica sempre presente em todas as "acções/intervenções" neste blogue e fora dele....pelos relatos de experiencias passadas, bem Hajas.
Lamentavelmente esta é uma situação cada vez mais comum, "nesta" sociedade, em que as Pessoas teem caracter "utilitário", em que "servem" enquanto servem e depois são "deitadas" fora....em que "pessoas" são "coisas", usam-se/consomem-se.....
Urge "mudar", o conceito/valor/ visão que temos do idoso/ do invalido/do doente, de uma maneira geral....!!!,ainda não percebemos que podem ser e são Pessoas com necessidades, com sentimentos, que merecem outro Trato, outro Estar...???, em sociedades cada vez mais "envelhecidas"......
Tambem aqui continuamos a não querer ver......,tantas as áreas onde poderiam dar os seus contributos e sentirem-se uteis.....em vez de serem vistos como "pesos mortos"....
Era bom que os nossos "politicos" fossem "sensiveis" a estas e outras questões....mas..., é mais uma "perversão", no meio de tantas outras....Tanta "disponibilidade" desaproveitada...
Continuamos a não querer "Aprender"...
Obrigada
AC

Maria, Simplesmente disse...

Quantos haverá mais por aí?
Pessoas sem família... pessoas que as famílias depositaram em casas ás quais chamam lares, sem pagar e voltar a pagar a humanidade e honestidade que essa gente não tem e devia ter, e ainda por cima casas sem fiscalização, que só aparece quando são denunciados, mas que os que lá vivem calam por medo.
A vida não devia ser assim!
É por isso que quando me dizem, que alguém partiu "de repente" quando não era esperado, eu que gosto da vida, mas era essa a partida que peço a Deus que me destine, sem dizer nada, não lamento, agradeço.
Triste... mas muito real!
Bj VT
Maria

Anónimo disse...

Pelo percurso pessoal de vida descrito, pelo relato cruel mas emotivo de vidas de outros com quem se cruzou, partilhou bons e maus momentos, pela forma como interagiu, reagiu, criou laços e laivos de felicidade, o reconhecimento a Si por ser essencialmente um Ser Humano que muito simplesmente se recusou a deixar de sê-lo.
Divinamente, um dia também gostaria de poder dizer "... nunca mais cheguei tarde."
Sabrina

Cleópatra MP disse...

A partilha é um dom precioso de alguns Homens.
Quando conheço situações como esta que relata, de repente encho-me de esperança no Ser Humano.
E permita-me que diga que o que partilhou com o Francisco foi muito mais que o saber e a dedicação de um médico. Foi Humanidade. Foi Fraternidade. Foi Amizade. Foi Respeito. Foi um ombro amigo que certamente o Francisco já não encontrava há muito tempo.
Tenho a certeza que onde quer que o Francisco esteja, guarda com ele um pedaço de si, Dr. Vasco Trancoso, e retribui-lhe com um sorriso franco e calmo...

Um grande abraço,
Cleópatra MP

VT disse...

Um grande abraço amigo e sensibilizado com a Vossa sensibilidade para a Mena Narciso, Luís, JJ, Hugo Macedo, Eva, AC, Maria, Sabrina e Cleópatra.
Bem Hajam
VT

Anónimo disse...

Very touching, Vasco. Uma realidade muito triste. LL

suzel disse...

Caro Dr. Vasco Trancoso, infelizmente era uma realidade a que poucos tinham acesso. Talvez se tivesse feito algo mais, talvez não... Quem sabe? Apesar de tudo, fez algo de certeza por muitos seres humanos... Os depósitos de velhos, continuam a existir e proliferar como cogumelos. A Segurança Social fecha os olhos a muita coisa... Por comodismo?... Dou-lhe os meus parabéns pelo blogue, e pela faceta humana que demonstra.

VT disse...

Muito obrigado LL e Suzel pelos simpáticos comentários. Voltem sempre.
Bem hajam
VT

Anónimo disse...

Uma fotografia linda, uma música sublime e um tema que conheço bem. A dignidade humana é um valor que, tristemente, faz muito pouco parte da nossa realidade.

Sinceros parabéns pelo texto - tão inspirado quanto sentido. Adorei.

Obrigada.
MJM