segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Reverie

Vladimir Horowitz foi (1/10/1903 a 5 /11/1989) um pianista clássico, com um estilo muito próprio (“Horowitziano”), de grande virtuosismo e considerado como um dos mais brilhantes de todos os tempos, devido à sua excepcional técnica aliada às suas actuações contagiantes. Foi considerado por muitos o indiscutível mestre em Scriabin e Rachmaninoff. Deixou a Rússia em 1925, sob a promessa de não se esquecer da mãe-pátria. Viria a naturalizar-se americano em 1942 e esteve mais de 60 anos sem regressar à sua terra natal. Aos 82 anos sucumbiu ao desejo de ver por uma última vez a Rússia antes de morrer. Ao abrigo de um acordo entre os USA e a URSSR, pediu para regressar como “embaixador da Paz”, considerando a tensão política que se vivia na altura (a aviação americana atacara a Líbia). Assim, em 20 de Abril de 1986, Horowitz tocou o seu Steinway pessoal perante uma audiência “electrizada”. A sessão foi alvo de gravação televisiva e em CD. Uma multidão que não conseguiu lugar no auditório ficou durante o concerto à porta do Conservatório de Moscovo – como quem diz: presente! As palmas e os “Bravos!” sucederam-se num ambiente de rara emoção. Havia quem dissesse que aquela interpretação “era sobre humana e vinha do céu” e um pianista russo conhecido exclamava que Horowitz “era o único pianista que conseguia tocar as cores”. Quando num dos “encores” o filho pródigo amado por toda aquela gente tocou Traumerei (“Reverie”) de Schumann… Sentiu-se que algo de mágico e poderoso se estava a passar. Uma corrente de ternura colectiva “explodiu” em direcção àquele velhote franzino, ao piano, que morreria em breve (3 anos depois) mas que antes quis dar o melhor que a sua alma guardava, naquele preciso momento, ao seu país de origem. As notas de Traumerei caíam cristalinas num silêncio total. As pessoas não estavam tristes, antes exultavam em poder assistir a algo de inimaginável. A câmara da televisão mostrava (vale a pena ver no Youtube) rostos emocionados no público suspenso daqueles 2 minutos e 27 segundos. As lágrimas que escorriam pelas faces dos espectadores são também as nossas. Não por acaso, escolhi uma fotografia “a preto e branco”, de um grupo de árvores junto ao lago do Parque das Caldas, para acompanhar a música de hoje porque estou certo que as notas tocadas por Horowitz irão colori-la com as cores dos sonhos. Enjoy…

Horowitz plays SchumannTraumerei in Moscow (1986)

11 comentários:

Anónimo disse...

De suster a respiração,ouvir,tornar a ouvir,ouvir outra vez,de olhos fechados.
"Notas cristalinas",absolutamente!Tão cristalinas quanto o imaculado
"preto e branco" que elas acompanham.
MV

Eliana Mora (El) disse...

momento feliz este de ler-te e ouvir o virtuose.

[sonhos bons, cheio 'de cores' nas notas, creio terei...]

beijos
El

Eva Gonçalves disse...

:)Horowitz has that effect...

Marcos Campos disse...

Olá Vasco!
Muito bom o seu blog, gostei muito das suas fotos, são muito belas!
Parabéns!
Abraço!

Anónimo disse...

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos

E por vezes encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes, ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão Ferreira

E por vezes… as notas de Música e os Sonhos que Sonhamos a Cores, absorvem as lágrimas que por vezes escorrem pelas nossas Faces…emoldurando o melhor que a nossa Alma guarda…

FC

Magnolia disse...

Perfeito...
Bj

VT disse...

Que bom este post ter desencadeado as emoções que nos apercebemos nestes comentários que agradeço.
Profundidade e muita sensibilidade polvilhada com poesia qb.
Aproveito para dar as boas vindas à Eliana e ao Marcos que fazem os seus primeiros comentários no blogue. Fico esperando mais. Voltem sempre.
Bem hajam
VT

luisa - fotografia disse...

MV descreveu o que senti ao olhar a fotografia e ao ouvir este belissimo som sempre presente na minha memória...de suster a respiração.
A foto só podia ser a preto e branco. bjo

VT disse...

Muito obrigado Luísa.
VT

alice atras do espelho disse...

Uma fotografia Monocromática em tons idealistas e sonhadores. Um belo Post feito por VT, onde nos guia por uma história real e espantosa. Obrigado por este bocadinho de sensibilidade.

Bjs do outro lado =)

Anónimo disse...

Belissimo...só mesmo para sentir, sentir e sentir... e dar asas á imaginação.
AC