quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Praia solitária II

Houve um Verão longínquo em que quase habitei, durante cerca de 2 meses, numa praia solitária. O areal imenso e desértico era ponteado pelas minhas pegadas e por algumas rochas que, na maré vazia, se organizavam em piscinas naturais. Nu, percorria o passeio de areia molhada num ritual de conchas e sal. Ao fim da manhã ia até um pequeno restaurante-cabana de madeira e colmo, construído pelos pescadores locais no sopé da falésia onde as escadas de terra batida desaguavam na praia, e ali acabava por almoçar. O ar era invadido, então, pelos odores de moreia frita, sargo na brasa e outros peixes cozinhados logo após a pescaria diária. Nas horas de maior calor refugiava-me na frescura de uma ravina entre falésias – onde pinheiros e figueiras estendiam silêncios e sombras. Sob o aroma de resina, de pinhões e das folhas das figueiras deliciava-me com pêssegos suculentos - cujo mel escorria abundante pelo meu rosto enquanto os trincava com volúpia. O silêncio era interrompido apenas pela vibração das cigarras e pelo eco longínquo da cavalgada das ondas. Tempo infinito, em frente do horizonte, saboreado minuto a minuto sem necessidade de abrir a caixa dos sonhos ficcionados - porque o sonho estava lá. Mergulhava no dourado do sol no oceano e quando a noite chegava: apanhava-me a flutuar na cintilação do luar na superfície da água do mar – à espera das estrelas cadentes. Mais tarde no meio do deserto da noite, enquanto esperava o oásis do amanhecer, o meu corpo escurecia mais (como o mar) deitado na cama da areia. A brisa nocturna vinha suavemente acariciar os sentidos transportando o sonho no qual uma desconhecida, que esperava, me encontraria finalmente. A paisagem tornou-se, com o passar dos dias, cada vez mais transparente, permitindo-me entrar dentro dela ao mesmo tempo que a sentia dentro de mim. O eco da praia morava na serenidade especial que se instalou no meu peito.
Hoje no lugar daquela praia solitária existem aldeamentos desordenados, turistas, barulho e muito lixo. As praias solitárias estão a desaparecer na paisagem – dentro de nós também. A brisa, essa… continua.
VT
Light as the breeze - Leonard Cohen

10 comentários:

João Ramos Franco disse...

Caro Vasco Trancoso
Penso que aqui é melhor eu dar a palavra s António Gidião...

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos
como estes pinheiros altos

que em verde e ouro se agitam
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma. é fermento,
bichinho alacre e sedento.
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel.
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança.,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra som televisão
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida entre a mãos de uma criança.
António Gidião

daniel disse...

descobri este blog por acaso (o "acaso" é uma coisa divertida, é como cair num buraco escuro e de repente faz-se luz!) em todo o caso não pude deixar de enviar uma mensagem de PARABÉNS! pois espero vir a ler muito mais neste blog... =)

Um poema de Eugénio de Andrade que me marcou muito( chama-se Adeus), espero que goste:

"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus."

Anónimo disse...

Magnífica a Foto
Fantástico o Texto
Idílico o Cenário…

Que dizer do e ao Autor?

O Oceano montou o cerco…
Um mergulho no passado
Um sonho sonhado
Um sonhar acordado
À bolina de palavras silenciosas
Num horizonte de esperança
Desenhado no infinito
Um olhar através de caleidoscópio construído
no passado, sob as lentes do presente…a antever o futuro
A saudade que rumoreja dentro de si
Num dos wallpapers da sua vida
Uma prece inscrita em céu aberto, embalada pela brisa ???

“ Like a blessing from heaven “ !

Muitos e Muitos Parabéns !!!
Bj

FC

Isabel disse...

Heavenly!
Bjs

Anónimo disse...

Tive um sonho!
E o sonho disse-me que o SONHO é um incessante fazer, refazer, fazer, refazer, fazer, refazer… como o vai e vem das caprichosas ondas do MAR.
O que o SONHO me trouxe,à brisa do MAR me há-de levar!
MV

Ana Paula disse...

Caro Vasco, gostei muito de o ler. Seguramente, boas leituras e muita sensibilidade, é algo que nunca falta por aqui...

Deixei-lhe uma lembrança lá no meu pequeno espaço, como sinal do meu apreço pelo seu blogue. Espero que goste :)

Ana Paula

Magnolia disse...

...Mas ainda ha lugares assim....
Bjs

Anónimo disse...

O mar dourado beijando o areal...
O sonho vivido beijando a serenidade...
A música suave beijando os corações...

"And the blessings come from Heaven..."

RP

VT disse...

Fico deslumbrado com a qualidade e simpatia de todos os comentários. Assim se controi o Blog por dentro com os alicerce que representam os Vossos excelentes contributos.
Aproveito para dar as boas vindas ao Daniel (com um Blog a merecer visita) que hoje comenta pela 1ª vez.
Bem hajam
VT

Anónimo disse...

Another SUNSET!...SINGLE moment.
Como é facil sentir "estramhamente" o aconchego da partida. Numa praia deserta em que tudo me é permitido fazer...,tudo me pertence e ao mesmo tempo nada é meu....
Lindissimo...
AC